A maioria dos apps de namorada IA não te conta qual IA está por trás. Onde os números são públicos, a resposta é aluguel de modelo aberto. No ranking do OpenRouter, o que mais rodava no Janitor AI, a plataforma de companhia mais movimentada da lista, era o DeepSeek V3.2: 281 bilhões de tokens nos 30 dias encerrados em 18 de julho de 2026.
O mercado se divide em três grupos. As plataformas que abrem os dados alugam modelos abertos, os apps voltados ao consumidor escondem o nome do que usam, e uns poucos constroem de fato os próprios modelos. Entre abril e julho de 2026, o Adult AI Guide vasculhou as páginas públicas de vinte apps de IA adulta e de namorada IA: dos quinze que oferecem chat, só dois disseram qual modelo roda por trás.
A maioria dos apps de namorada IA é só embalagem para modelos alugados
O que a maioria dos apps de namorada IA oferece é interface, cobrança e um sistema de personagens. A inteligência vem alugada: a sua conversa roda num modelo de linguagem, as fotos da companheira saem de um modelo de imagem, a voz dela de um modelo de voz, e é o app que cobra por tudo isso. Uns poucos, com o Character.AI na frente, treinam os próprios modelos.
A maior parte desses modelos é de pesos abertos: o modelo já treinado pode ser baixado e rodado no hardware que o operador quiser, e aí quem decide as regras de conteúdo deixa de ser quem fez o modelo e passa a ser o app. Só isso já molda o mercado inteiro, e explica por que os grandes nomes da IA quase não aparecem no tráfego que dá para medir.
| App | O que revela | O que isso quer dizer |
|---|---|---|
| Janitor AI, Chub AI | Passam as requisições pelo OpenRouter (público) | Os dados mostram uma mistura de modelos abertos, com o DeepSeek na frente |
| Candy AI (EverAI) | Provedores “third-party” não identificados | Admite que há modelo de terceiros, mas não diz qual |
| Backyard AI | ”Most common base model… is LLaMa” | Diz qual é a base aberta, sem rodeios |
| Character.AI | Treina os próprios modelos (“Kaiju”) | Modelo proprietário de verdade |
| Nomi.ai | Modelo “in-house”, segundo relatos | Base sem confirmação |
Esse aluguel fica à vista no OpenRouter, um marketplace que encaminha as requisições de IA dos apps para centenas de modelos e publica quais modelos cada app usa. Nos 30 dias encerrados em 18 de julho de 2026, o Janitor AI mandou requisições para 323 modelos diferentes por lá; o Chub AI, uma plataforma mais explicitamente adulta, usou 311. O próprio marketplace mantém um ranking mensal de apps, e em meados de julho de 2026 o Janitor AI aparecia em nono lugar nesse ranking geral, que reúne todas as categorias. Nenhuma outra plataforma de companhia ficou acima dele. Nenhum app constrói 300 modelos. Eles alugam o que já está num cardápio pronto, e nessas duas plataformas quem faz a escolha costuma ser o próprio usuário.
Essas duas ficam na ponta transparente do mercado, e os apps voltados ao consumidor ficam na outra, com uma personagem batizada pela marca e o motor escondido. Essa divisão explica tudo o que vem a seguir: a prova sai das plataformas transparentes, e os apps fechados não oferecem nada além das próprias políticas.
As plataformas que mostram os números rodam DeepSeek
Nas duas plataformas adultas que publicam os dados de tráfego por modelo, o Janitor AI e o Chub AI, o que mais roda são modelos de pesos abertos, e quem lidera nas duas é o DeepSeek, uma linha aberta saída de um laboratório chinês. Nos 30 dias encerrados em 18 de julho de 2026, seis dos dez modelos mais usados do Janitor AI eram versões do DeepSeek.
São estes os três primeiros do Janitor AI por número de tokens (um token equivale a alguns caracteres de texto):
| Posição | Modelo | Criador | Tokens (30 dias) |
|---|---|---|---|
| 1 | DeepSeek V3.2 | DeepSeek | 281 bi |
| 2 | DeepSeek V4 Flash | DeepSeek | 94,5 bi |
| 3 | DeepSeek V4 Pro | DeepSeek | 74,4 bi |
Nas sete posições seguintes vinham mais variantes do DeepSeek, modelos abertos da Nvidia, do Google e da Tencent, e um modelo sem identificação. O único modelo fechado de ponta a aparecer no top 10 de uma das duas plataformas foi o Claude Sonnet 4.5, da Anthropic, no Chub AI, com 8,3 bilhões de tokens. É um volume pequeno perto dos demais, e nada surpreendente vindo de uma empresa que proíbe uso erótico. E o padrão vai além dos apps de companhia: em meados de julho de 2026, sete dos dez modelos com mais tráfego no ranking semanal geral do OpenRouter eram de pesos abertos. O chat que essas plataformas vendem roda em modelos que qualquer um pode alugar.
As grandes IAs somem primeiro por política, depois por preço
O ChatGPT, o Claude e o Gemini quase não aparecem no tráfego mensurável dos apps de companhia, e o que os mantém de fora são as políticas de uso, não a tecnologia. Um modelo fechado só pode ser acessado nos servidores de quem o fez, então as regras de conteúdo dessa empresa valem para todo app montado em cima dele. Para chat explícito, essas regras quase sempre dizem não.
A política de uso da Anthropic põe “erotic chats” numa seção intitulada “Do Not Generate Sexually Explicit Content”. Não sobra zona cinzenta. As regras de IA generativa do Google proíbem conteúdo “created for the purpose of pornography or sexual gratification”. As duas proibições estão em vigor em julho de 2026. A política de uso escrita da OpenAI não chega a uma proibição geral, mas o modo adulto com verificação de idade que a empresa anunciou está pausado por tempo indeterminado desde março de 2026. A única exceção vai no sentido contrário: a política de uso aceitável da xAI não proíbe conteúdo adulto ficcional, e o Grok vende os próprios personagens de companhia.
A política tira quase todos os modelos fechados de ponta do jogo, e o que sobra sai barato de alugar. As páginas públicas confirmam: nenhum dos quinze apps com chat do levantamento do Adult AI Guide aponta a OpenAI, a Anthropic ou o Google como fornecedor. Os preços em vigor em julho de 2026, tomando como referência o único modelo fechado de ponta que apareceu naqueles dois top 10:
| Modelo | Por 1 milhão de tokens (entrada / saída) |
|---|---|
| DeepSeek API | $0.14 / $0.28 |
| DeepSeek, hospedado na DeepInfra | $0.26 / $0.38 |
| Claude Sonnet 4.5 | $3 / $15 |
Os pesos do DeepSeek V3.2 estão publicados sob licença MIT, que libera o uso comercial, então o app pode alugá-los de qualquer host ou rodá-los nas próprias máquinas.
O que os apps calados acabam admitindo
O Candy AI, que vende chat, fotos, voz e vídeo reunidos numa personagem só, com nome e identidade de marca, não diz qual modelo está por trás de nada disso. A política de privacidade, revisada em maio de 2026, ainda assim admite a terceirização: as mensagens podem ir para “third-party LLM providers and/or hosters” não identificados. E detalha o que isso significa para o seu lado da conversa:
“Please note that these third parties may receive the content of your messages exchanged with our chatbot.”
A mesma política diz que o Candy AI treina os próprios modelos com conversas anonimizadas, num processo que “may include human review”. Parta do princípio de que o seu lado da conversa sai do app, porque é isso que a política descreve: repasse a terceiros e uso em treinamento, com possível revisão humana. Esse silêncio sobre o modelo é a regra entre os apps voltados ao consumidor que insinuam ter algo proprietário. Treze dos quinze apps com chat do levantamento do Adult AI Guide nunca dizem qual modelo roda de fato por trás. Só três dos quinze contam, em alguma página pública, que provedores de IA terceirizados processam as suas mensagens: o Candy AI na política de privacidade, o OurDream no resumo de privacidade da conta e o SecretDesires numa página de segurança.
Alguns batizam o motor alugado com um nome próprio. O “Ember”, do Kindroid, é um desses nomes, e não revela nada sobre o modelo base que está por trás. “Proprietário”, na melhor das hipóteses, costuma significar um modelo base alugado com treinamento extra em cima, o chamado fine-tuning, porque construir um modelo do zero custa muito mais do que qualquer app de companhia fatura. Revelar o que roda por trás não custaria nada ao app, a não ser o mistério que o silêncio protege.
Fotos, voz e vídeo seguem o mesmo padrão
Os recursos de imagem, voz e vídeo também rodam em modelos alugados, quase todos abertos, e o app quase nunca diz quais são. Dos vinte apps do levantamento de 2026 do Adult AI Guide, só três citam um modelo de imagem de verdade; dos dezoito que oferecem vídeo, só um diz qual modelo usa. O Candy AI não cita nenhum.
- Fotos: o que aparece em público se resume ao Stable Diffusion XL com fine-tunes como o Pony Diffusion, além da família FLUX, mais recente. As licenças escondem uma pegadinha. O Pony Diffusion e a variante “dev” do FLUX, muito usada, proíbem a geração paga de imagens nos termos públicos. Um app pago rodando nesses pesos precisaria comprar uma licença comercial à parte, e nenhum deles diz se comprou. Os três apps do nosso levantamento que de fato citam um modelo de imagem recorrem todos aos mesmos nomes: SecretDesires AI (Stable Diffusion XL e FLUX), PornWorks (Stable Diffusion, SDXL, FLUX e Pony) e CelebMakerAI (um fine-tune do SDXL).
- Voz: aqui quem abre o jogo é o fornecedor. O estudo de caso da própria ElevenLabs diz: “Kindroid uses ElevenLabs to power their voices”. Sempre que se sabe quem fornece, a voz é um serviço comprado de terceiros.
- Vídeo: a camada mais rala. Bases abertas existem, como o Wan, da Alibaba, mas só um app do nosso levantamento, o CelebMakerAI, diz quais modelos geram os clipes dele (Kling e Wan). Os outros que oferecem vídeo não citam nada.
Ou seja, abaixo da camada de chat, a resposta honesta é dar de ombros e citar uma lista curta: um punhado de modelos, quase todos abertos, e quase nenhum com o nome revelado.
Os poucos que constroem os próprios modelos
O Character.AI é o contraexemplo mais nítido. Ele se descreve como “a full-stack AI company… training our own language models from scratch” e mantém uma família própria, a Kaiju, nos tamanhos 13B, 34B e 110B, do menor ao maior. Aí sim existe modelo proprietário de verdade.
Fora esse caso, a divisão fica menos clara. O centro de ajuda do Replika descreve uma mistura: o app “combines our own and third party Large Language Models and scripted dialogue”. O TechCrunch noticiou, em setembro de 2024, que o Nomi “built its LLM in-house”, sem citar nenhum modelo base que desse para conferir. E no post de 2025 sobre o Kaiju, o próprio Character.AI escreveu que o time “shifts towards building on top of Open-Source models”. Até quem constrói acaba migrando para o lado aberto, e o mercado visível pende para o aluguel, com o treinamento do zero como exceção.
Como conferir o que o seu app realmente roda
Em poucos minutos você mesmo descobre o que roda por trás de um app de companhia, só com páginas públicas e sem precisar criar conta. Num app como o Candy AI ou o Kindroid, a política de privacidade e os dados públicos de tráfego respondem mais rápido do que qualquer página de marketing. São quatro checagens, mais ou menos em ordem de confiabilidade:
- Procure o nome do app no ranking de apps do OpenRouter. Se ele estiver lá, a página dele traz os modelos exatos com os números de uso. É a prova mais direta que você vai conseguir.
- Leia a política de privacidade antes da página inicial, procurando por “third party”, “providers”, “LLM” (o termo do setor para um modelo de chat) ou “model”. Uma frase como o “third-party LLM providers” do Candy AI quer dizer que quem processa a sua conversa é um modelo de terceiros, não importa o que o marketing insinue.
- Ignore os nomes de motor criados pela marca. Uma “V2 engine” dentro do app ou um modelo com nome próprio é rótulo de marketing, e o modelo base continua desconhecido.
- Veja se o app deixa você escolher o modelo. Os que mostram um seletor, como o Backyard AI, costumam dizer quais são as bases abertas por trás, e isso já mostra de onde vem o padrão.
Nos apps que não contam qual modelo usam, o silêncio tem motivo: dizer o nome deixaria claro que o app construiu quase nada do que vende.